sábado, 29 de outubro de 2011
Devia ter embarcado.
pensa quando sentada na cozinha daquela casa vazia, o bilhete do trem preso em sua mão, os sapatos sujos de lama, com um pouco de dor no coração, pois, dizia ele, que não existia dor no peito. Balançou a cabeça contra o vento descomunal que batia nas cortinas. Podia fechar a janela, mas não iria, gostava de sentir o vento que, quase como um suspiro, agradava seu pescoço nu. Largou o bilhete no chão quando desastrosa levantou-se para desligar a chaleira que apitava: A água estava quente, o tempo estava frio, seu coração estava vazio. Deu um sorriso meio mórbido e serviu-se de duas xícaras generosas, “sem açúcar, por favor”, disse para ela mesma imitando o senhor. “Devia ter embarcado”, pensou bufante, mas a ideia logo se dissipou… Melhor ter ficado do que ter ido, afinal. Melhor enfrentar o cotidiano do que enfrentar o desconhecido. Melhor regar as mesmas rosas e matá-las de afogamento, do que podá-las, tirar-lhes os espinhos e fingir que dentro daquelas rosas há algum sentimento. “São só flores, são só amores, são só xícaras de chá… Só alguns tremores”.
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